quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Capítulo 1 - Precisamos Conversar - Parte A


Foi a noite mais longa de toda a existência de Camila. O relógio, quase imperceptível, tinha seu tic-tac ensurdecedor, cada hora parecia ter 180 minutos, e ela viu a noite toda transcorrer, calma e dolorosamente. nem um segundo ela conseguia parar de pensar em tudo que ouvira naquela noite. O caos do trânsito da metrópole , pela primeira vez, silenciara e dera lugar ao caos que estava em sua mente. Série de imagens passavam como um relâmpago em sua mente, sua vida, suas histórias, escolhas, ideais, tudo em sua vida estava diante dos seus olhos. Ansiosa esperava pela manhã, talvez os raios do sol pudesse ajudá-la clarear sua mente, mas eles demoraram mas que o normal, pensou até que, talvez, eles nunca viessem e sua mente ficaria numa eterna escuridão sem fim. Suava muito.

Ao olhar a janela e perceber que se via árvores lá fora, percebeu que a noite dava adeus. Percebeu que em meio a vozes de sua mente os pássaros cantavam, percebeu que a hora passara e num pulo, saiu da cama e correu para o banheiro. Nunca ela havia pensado na necessidade de um banho após uma noite de pensamentos turbulentos. O tomou demoradamente. A água banhava seu corpo por fora e as lágrimas lavavam seu interior. Estava se sentindo perdida, confusa e com medo. Não sabia como transcorreria o dia, como tomaria decisões e apenas uma certeza lhe sobrava na alma, precisava de um forte e amargo café. Nunca tomava café, mas aquele era um dia perfeito para saborear uma quente, forte e amarga xícara de café. Nunca se sentira tão bem com o roupão de banho cor de rosa, nunca havia percebido que aquele roupão de banho era cor de rosa. Rosa nem era sua cor preferida, mas se sentia bem. Foi a cozinha, colocou tudo na cafeteira como ordenava a receita no verso da embalagem de café, que dizia que uma experiência incrível aconteceria ao sentir o aroma: Seria transportados as casas de campos com seu aroma irresistível. Tinha um cheiro forte demais que chegou a fazê-la cogitar não tomar o café, mas ela precisava. Precisava de uma carga de adrenalina logo pela manhã, pela tarde e pela noite, pois sabia que tudo ia ser difícil e não queria sofrer com a sonolência que podia ser causada pela noite mal dormida. Saboreou o amargo café sem açúcar como quem saboreia um morno e digestivo chá de boldo.
No meio de todas as preocupações, a fome não poderia se fazer presente. Tirando o café, tinha grande particularidade com a cozinha, sua mãe dizia que ela seria uma exímia dona de casa e uma excelente mãe, ideia que a fazer contorcer de cólica só de pensar. Odiava a ideia de ser dona de casa e mãe. Conhecia muito bem cada utensílio, cada receita, inclusive as que ela mesma havia anotado em seu caderninho de receitas, sonhava em um dia poder publicá-lo, e num estalo de um insight, começou a preparar o café da manhã com o pretexto de poder ajudá-la com o dia e com a conversa que precisaria de ter dali a instantes. Não teria como escapar. Fez com maestria cada parte da refeição, suco de laranja com mamão adoçado com açúcar mascavo, omelete na manteiga com ervas finas, torradas de pão integral, geleia de amora, geleia de carambola. Sentiu que faltava mais uma coisa... o café... já que estava pronto. Armou tudo na sala, que era bem ampla e com poucos móveis. Havia um enorme tapete felpudo no centro da sala, desses tapetes que vemos nas casas dos ricos das telenovelas, enormes almofadas espalhadas que mais pareciam poltronas, algumas de estampas de bichos silvestres, outras em tom paste, aliás, tudo na sala era meio em tons pastéis. Uma enorme bancada de madeira de demolição com objetos exotéricos como velas, pedras, incensos, imagens das mais variadas religiões, um vaso de margaridas, sua flor preferida. Embora não seguisse nenhuma religião, dizia que gostava de estar cercada por energias: "- Se for para o bem que mal tem?". Sempre dizia messas questões. Não havia televisão, elas não assistiam televisão, Camila assistia seus programas de culinárias preferidos pelo notebook via internet. Numa das paredes da ampla sala, uma barra de exercício de dança, sua maior paixão era o balé, no qual se exercitava toda manhã, menos nessa manhã, que pela primeira vez em anos, esquecia que existia, e uma janela enorme que dava pra ver ao longe uma enorme e bela montanha verde, que ficava depois de uma selva de pedra de prédios e edifícios comerciais. Armou tudo no chão como se fosse um enorme pic-nic, ficou por alguns minutos observando sua obra de arte. Foi para o quarto se trocar, precisa por umas roupas, não sabia por que mas precisava.
Achou uma saia longa florida que havia ganhado de uma tia em um de seus aniversários e uma "brusinha" branca, uma regatinha que tinha maior paixão, que foi dada por sua avó ainda em vida, tinha um furinho perto da altura do umbigo, mas dava até que um charme, e como sempre em casa, pés descalço. Deixou os cabelos cacheados longos como uma cascatas soltas e bagunçados, voltou pra sala, sentou-se diante do banquete e esperou. Precisava esperar que Michele acordasse sem que ela precisasse chamar. Michele ao ser acordada era tomada por um mau humor que transcorria por todo o dia, lição que aprendera nos três anos juntas. Então simplesmente esperou.
Depois de algum tempo, Michele aparece na sala, de camiseta branca e calcinha verde-água rendada, um cabelo black power digno de uma rainha africana e uma pele de dar inveja a qualquer chocolate meio amargo. Cara amarrotada de sono, sorriso lindo de uma noite tranquila. Fitava com desejo todo aquele café da manhã, mesmo sem saber o por que de tudo aquilo. Cogitou esquecer de alguma data, mas, impossível, ela jamais esqueceu uma data sequer. Quando ia abrir a boca, Camila disse serenamente: - Precisamos conversar. O coração de Camila estava explodindo como se fosse a terceira guerra mundial.

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